Identificar-se com a mente, o que faz com que estejamos sempre pensando em alguma coisa. Ser incapaz
de parar de pensar é uma aflição terrível, mas ninguém percebe porque quase todos nós sofremos disso e, então,
consideramos uma coisa normal. O ruído mental incessante nos impede de encontrar a área de serenidade
interior, que é inseparável do Ser. Isso faz com que a mente crie um falso eu interior que projeta uma sombra de
medo e sofrimento sobre nós. Examinaremos esses pontos detalhadamente, mais adiante.
O filósofo Descartes acreditava ter alcançado a verdade mais fundamental quando proferiu sua conhecida
máxima: “Penso, logo existo”. Cometeu, no entanto, um erro básico ao equiparar o pensar ao Ser e a identidade
ao pensamento. O pensador compulsivo, ou seja, quase todas as pessoas, vive em um estado de aparente
isolamento, em um mundo povoado de conflitos e problemas. Um mundo que reflete a fragmentação da mente
em uma escala cada vez maior. A iluminação é um estado de plenitude, de estar “em unidade” e, portanto, em
paz. Em unidade tanto com o universo quanto com o eu interior mais profundo, ou seja, o Ser. A iluminação é o
fim não só do sofrimento e dos conflitos internos e externos permanentes, mas também da aterrorizante
escravidão do pensamento. Que maravilhosa libertação!
Se nos identificamos com a mente, criamos uma tela opaca de conceitos, rótulos, imagens, palavras,
julgamentos e definições que bloqueia todas as relações verdadeiras. Essa tela se situa entre você e o seu eu
interior, entre você e o próximo, entre você e a natureza, entre você e Deus. E essa tela de pensamentos que cria
uma ilusão de separação, uma ilusão de que existe você e um “outro” totalmente à parte. Esquecemos o fato
essencial de que, debaixo do nível das aparências físicas, formamos uma unidade com tudo aquilo que é. Por
“esquecermos” quero dizer que não sentimos mais essa unidade como uma realidade evidente por si só. Podemos até acreditar que isso seja uma verdade, mas não mais a reconhecemos como verdade. Acreditar pode
até trazer conforto. No entanto, a libertação só pode vir através da vivência pessoal.
Pensar se tornou uma doença. A doença acontece quando as coisas se desequilibram. Por exemplo, não há
nada de errado com a divisão e a multiplicação das células no corpo humano. Mas, quando esse processo
acontece sem levar em conta o organismo como um todo, as células se proliferam e temos a doença.
Se for usada corretamente, a mente é um instrumento magnífico. Entretanto, quando a usamos de forma
errada, ela se torna destrutiva. Para ser ainda mais preciso, não é você que usa a sua mente de forma errada. Em
geral, você simplesmente não usa a mente. É ela que usa você. Essa é a doença. Você acredita que é a sua
mente. Eis aí o delírio. O instrumento se apossou de você.
Não concordo muito com isso. É verdade que penso muito sem um objetivo definido, como a maioria das
pessoas, mas ainda posso escolher como usar a minha mente para ter e conseguir coisas, e faço isso o tempo
todo.
Só porque podemos resolver palavras cruzadas ou construir uma bomba atômica não significa que
estejamos usando a mente. Assim como os cães adoram mastigar ossos, a mente adora transformar dificuldades
em problemas. É por isso que ela resolve palavras cruzadas e constrói bombas atômicas. Mas essas coisas não
interessam a você. Pergunto então: você consegue se livrar da sua mente quando quer? Já encontrou o botão que
a “desliga”?
A idéia é parar de pensar completamente? Não, não consigo, a não ser por um ou dois segundos.
Então, é porque a mente está usando você. Estamos tão identificados com ela que nem percebemos que
somos seus escravos. É quase como se algo nos dominasse sem termos consciência disso e passássemos a viver
como se fôssemos a entidade dominadora. A liberdade começa quando percebemos que não somos a entidade
dominadora, o pensador. Saber disso nos permite observar a entidade. No momento em que começamos a
observar o pensador, ativamos um nível mais alto de consciência. Começamos a perceber, então, que existe
uma vasta área de inteligência além do pensamento, e que este é apenas um aspecto diminuto da inteligência.
Percebemos também que todas as coisas realmente importantes como a beleza, o amor, a criatividade, a alegria e
a paz interior surgem de um ponto além da mente. É quando começamos a acordar. Eckhart Tolle
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