quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O que nos faz não ser iluminados?

Identificar-se com a mente, o que faz com que estejamos sempre pensando em alguma coisa. Ser incapaz
de parar de pensar é uma aflição terrível, mas ninguém percebe porque quase todos nós sofremos disso e, então,
consideramos  uma  coisa  normal.  O  ruído  mental  incessante  nos  impede  de  encontrar  a  área  de  serenidade
interior, que é inseparável do Ser. Isso faz com que a mente crie um falso eu interior que projeta uma sombra de
medo e sofrimento sobre nós. Examinaremos esses pontos detalhadamente, mais adiante. 
O filósofo Descartes acreditava ter alcançado a verdade mais fundamental quando proferiu sua conhecida
máxima: “Penso, logo existo”. Cometeu, no entanto, um erro básico ao equiparar o pensar ao Ser e a identidade
ao  pensamento.  O  pensador  compulsivo,  ou  seja,  quase  todas  as  pessoas,  vive  em  um  estado  de  aparente
isolamento, em um mundo povoado de conflitos e problemas. Um mundo que reflete a fragmentação da mente
em uma escala cada vez maior. A iluminação é um estado de plenitude, de estar “em unidade” e, portanto, em
paz. Em unidade tanto com o universo quanto com o eu interior mais profundo, ou seja, o Ser. A iluminação é o
fim  não  só  do  sofrimento  e  dos  conflitos  internos  e  externos  permanentes,  mas  também  da  aterrorizante
escravidão do pensamento. Que maravilhosa libertação!
Se  nos  identificamos  com  a mente,  criamos  uma  tela  opaca  de  conceitos,  rótulos,  imagens,  palavras,
julgamentos e definições que bloqueia  todas  as  relações verdadeiras. Essa  tela  se  situa entre você  e o  seu  eu
interior, entre você e o próximo, entre você e a natureza, entre você e Deus. E essa tela de pensamentos que cria
uma  ilusão de  separação, uma  ilusão de que existe você e um “outro”  totalmente à parte. Esquecemos o  fato
essencial de que, debaixo do nível das aparências  físicas,  formamos uma unidade com  tudo aquilo que é. Por
“esquecermos”  quero  dizer  que  não  sentimos  mais  essa  unidade  como  uma  realidade  evidente  por  si  só. Podemos até acreditar que isso seja uma verdade, mas não mais a reconhecemos como verdade. Acreditar pode
até trazer conforto. No entanto, a libertação só pode vir através da vivência pessoal. 
Pensar se tornou uma doença. A doença acontece quando as coisas se desequilibram. Por exemplo, não há
nada  de  errado  com  a  divisão  e  a multiplicação  das  células  no  corpo  humano. Mas,  quando  esse  processo
acontece sem levar em conta o organismo como um todo, as células se proliferam e temos a doença. 
Se for usada corretamente, a mente é um instrumento magnífico. Entretanto, quando a usamos de forma
errada, ela se torna destrutiva. Para ser ainda mais preciso, não é você que usa a sua mente de forma errada. Em
geral,  você  simplesmente  não  usa  a mente. É  ela  que  usa  você. Essa  é  a  doença. Você  acredita  que  é  a  sua
mente. Eis aí o delírio. O instrumento se apossou de você. 

Não concordo muito com isso. É verdade que penso muito sem um objetivo definido, como a maioria das
pessoas, mas ainda posso escolher como usar a minha mente para ter e conseguir coisas, e faço isso o tempo
todo. 


Só  porque  podemos  resolver  palavras  cruzadas  ou  construir  uma  bomba  atômica  não  significa  que
estejamos usando a mente. Assim como os cães adoram mastigar ossos, a mente adora transformar dificuldades
em problemas. É por isso que ela resolve palavras cruzadas e constrói bombas atômicas. Mas essas coisas não
interessam a você. Pergunto então: você consegue se livrar da sua mente quando quer? Já encontrou o botão que
a “desliga”? 

A idéia é parar de pensar completamente? Não, não consigo, a não ser por um ou dois segundos. 

Então, é porque a mente está usando você. Estamos  tão  identificados com ela que nem percebemos que
somos seus escravos. É quase como se algo nos dominasse sem termos consciência disso e passássemos a viver
como se fôssemos a entidade dominadora. A  liberdade começa quando percebemos que não somos a entidade
dominadora,  o  pensador.  Saber  disso  nos  permite  observar  a  entidade.  No momento  em  que  começamos  a
observar o  pensador,  ativamos  um  nível mais  alto  de  consciência. Começamos  a  perceber,  então,  que  existe
uma vasta área de  inteligência além do pensamento, e que este é apenas um aspecto diminuto da  inteligência.
Percebemos também que todas as coisas realmente importantes como a beleza, o amor, a criatividade, a alegria e
a paz interior surgem de um ponto além da mente. É quando começamos a acordar.  Eckhart Tolle

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